Existe neutralidade profissional?
“Consciência desde o início é um produto social.” A. N. Leontiev, 2014/20
Com o crescimento de uma ciência mecanicista que acredita ser possível uma separação total entre sujeito e objeto (de estudo), cresce também cada vez mais a ideia de que é possível profissionais atuarem sob uma suposta neutralidade.
Partindo daí, penso que o primeiro passo é refletir sobre o que está sendo considerado como neutro. Vindo desse campo crescente da ciência, parece que se trata de um conceito completamente abstrato, descolado da vida material; que nos leva, inclusive, à pós-política, ou seja, à ideia de que é possível uma técnica pura, sem moral, valores, crenças: uma técnica neutra.
Porém, somos seres histórica e socialmente determinados. Tudo o que pensamos, a forma como interpretamos o mundo, está condicionado ao tempo histórico em que vivemos e às relações sociais (principalmente de produção/reprodução) desse mesmo tempo.
Sendo assim, não só nao existe neutralidade na vida profissional, como também, não existe ser humano neutro. Nós nascemos em um mundo que já existe, já possui seus modos de ser, suas ideologias, que nos forma! E, mesmo para transformá-lo, partiremos desse que já existe.
“O homem comum e corrente é um ser social e histórico; isto é, encontra-se imerso em uma rede de relações sociais e enraizado em um determinado terreno histórico. Sua própria cotidianidade está condicionada histórica e socialmente, e o mesmo se pode dizer da visão que tem da própria atividade prática.” A. S. Vazquez 2011/33
Portanto, ao interpretarmos o mundo - ao criarmos teorias, filosofias - elas não vêm de forma pura, vêm carregadas de ideias, valores, preconceitos de um mundo dominado por uma determinada classe. Ao pensarmos sem levar em consideração essa relação dialética sujeito-objeto (acreditando atingirmos, assim, a neutralidade), na verdade o que se atinge é a reprodução das ideologias dominantes de forma acrítica.
Estamos, então, fadades?
Muito pelo contrário!
O que precisamos é, a partir dessa consciência, significar o mundo com um compromisso histórico e social, buscando uma práxis em sua totalidade. Ou seja, entender nosso papel nas relações sociais e, a partir disso, agir de forma guiada aos nossos objetivos.
Referências
VÁZQUEZ, A. S. Filosofia da práxis. 2011. 2ª Edição. Expressão Popular.
FERNANDES, S. Sintomas Mórbidos. 2019. 2ª Impressão. Autonomia Literária.

